Daniel Craig: “Sinto falta de ir ao cinema”

Publicado: 27/05/2009 em Cinema
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Daniel Craig em Um Ato de Liberdade

Daniel Craig deve estar na lista de rostos mais conhecidos do mundo, perdendo pro Inri Cristo (oi!?) e a Madre Tereza. Hehe. James Bond transformou Craig em astro mundial e, por um lado, tirou uma das coisas que ele mais gosta de fazer na vida: curtir uma sessão de cinema com tranquilidade.

O astro recebeu o SOS Hollywood para uma entrevista exclusiva no ano passado, em Los Angeles, para divulgar Um Ato de Liberdade, filmão sobre a Segunda Guerra Mundial que está em cartaz nos cinemas brasileiros (leia crítica aqui). Esse papo já foi publicado em Portugal, mas, no Brasil, é inédito. Descubra um pouco mais sobre o sujeito que salvou Jamie Bell de hipotermia no set e logo mais volta à carga como James Bond. Sério, curto, nem tão grosso, mas direto ao ponto. E ainda foi gente boa para me cumprimentar.

Quebra tudo Craig! =D

Aceitar um roteiro é uma coisa, agora chegar a uma locação extrema como uma floresta congelada no meio do inverno é outra, não?
Ficou muito claro nos primeiros minutos que teríamos uma grande responsabilidade ali. Seria muito difícil trabalhar com tanta neve e frio, agora imagine representar pessoas que viveram por anos naquele ambiente? Duvido que conseguisse sobreviver uma semana nessas condições, mesmo com todas as tendas, aquecedores e fogueiras que a equipe mantinha acesa para tentar amenizar. Entretanto, tudo isso foi refletido no filme, afinal, embora por pouco tempo, sofremos os mesmos desafios físicos – frio, umidade e desconforto – que os verdadeiros personagens de “Um Ato de Coragem”.

Aprender a falar russo também foi um desafio ou apenas memorizou os diálogos?
Aprendi minhas falas pelo aspecto fonético, mas foi o melhor que deu para fazer. Comprei vários daqueles cursos de idiomas em DVD, para tentar aprender em casa, e isso me auxiliou a ficar mais confortável com o idioma.

Que tipo de histórias os descendentes dos Bielski te contaram?
Uma das coisas mais interessantes dessa situação foi que os irmãos Bielski não falavam sobre o assunto nem entre eles mesmos depois do fim da guerra. Não é novidade saber que gente afetada por situações traumáticas como essa reajam dessa maneira, então o assunto se tornou tabu dentro da família, porém, acredito que houve um pouco em que descendentes tanto deles quanto dos demais sobreviventes queriam descobrir os segredos daquele tempo e saber como foi possível permanecer vivo contra todas as probabilidades. Esse é um aspecto de filmes de guerra com aspecto sócio-político, por assim dizer, deixam passar: celebrar a vitória da Humanidade daquelas pessoas, não apenas ficar lamentando as mortes. Vivi muito disso com meu avô, que evitava a todo custo falar sobre a Segunda Guerra, pois muita coisa ruim acontecia – mesmo em nossas cidades –, pois atitudes extremas, e vergonhosas, em alguns pontos, são necessárias para se continuar vivo. Coisas ruins acontecem.

Falando em coisas ruins, você tem muito medo de alguma coisa? Algum limite que só cruzaria numa situação extrema?
Sou uma pessoa muito normal nesse aspecto. Acho que tenho os medos que todo mundo tem: temo pela saúde e segurança da minha família, de pessoas queridas e etc. É difícil saber qual seria o limite, mas acho que num caso extremo sempre vai acontecer algo capaz de mudar as perspectivas para que o medo vá embora e a coragem, ou desespero, tome conta. Se deixar eu falo o dia inteiro sobre isso (risos). O grande ponto é mesmo a motivação. Dependendo da razão, sua reação vai ser diferente. Quem luta por vingança vai ter um tipo de medo e tomar certas atitudes assim que ultrapassa suas barreiras morais, agora quem tem algo como paz em mente, vai ver tudo por outra perspectiva e, claro, guiar suas ações por essa ótica. Isso se reflete em Um Ato de Coragem, pois o personagem de Liev [Schreiber] representa o desejo de vingança e agressividade, enquanto Tuvia [personagem de Craig] quer ficar em paz. Me identifico com isso.

Qual sua opinião a respeito de armas de fogo no aspecto pessoal e profissional?
Bom, armas matam gente. É simples assim. Aquele discurso de que são as pessoas que usam as armas é tudo enrolação. Armas são desenhadas e criadas para matar pessoas e isso, infelizmente, faz parte da nossa cultura, é inegável. Em algumas situações, o uso de armas de fogo é um mal necessário.

Você teria uma?
Nunca, nunca teria uma arma dentro da minha casa. Para mim é difícil entender a perspectiva norte-americana sobre o porte de arma, que é um direito previsto pela constituição, portanto respeito, mas não pratico. Não vejo porque ter uma arma, afinal, ela não seria usada (risos). Pelo menos não por mim, o único jeito seria alguém encontrá-la e causar uma tragédia ou algum bandido invadir a casa e achar a arma. Em ambos os casos, causaria perdas e coisas ruins. Não quero isso na minha vida.

Você também vive envolvido em situações de risco profissionalmente, sejam carros em alta velocidade ou explosões gigantescas. É diferente encarar os efeitos especiais de Bond, onde é tudo controlado em set, e num filme como “Um Ato de Coragem”, que foi feito num cenário real?
Por sorte trabalhei com o mesmo cara que fez os efeitos de 007 e em Um Ato de Coragem, então não pensava muito no assunto. Mas numa das cenas que envolve o bombardeio da floresta eu estava escondido atrás de um arbusto e, cerca de 10 metros de distância, estava o técnico com seus detonadores e botões coloridos. Ele não parava de olhar para mim. Fiquei pensando, “por que diabos eu só vejo esse cara quando ele está prestes a me mandar pelos ares ou explodir alguma coisa em cima de mim?” (gargalhadas). Cada filme é diferente, mas ser explodido parece ser parte importante da minha vida nesse momento (risos).

Gosta desse ritmo ou tem outros planos?
(risos) Prometo voltar a fazer dramas mais calmos e pensativos em breve.

Por falar em mudanças, qual você notou que sua vida havia mudado definitivamente por conta da fama?
Passei a maior parte dos últimos anos tentando fazer de conta que minha vida não mudou nem um pouquinho, para ser sincero. Tento viver da maneira mais normal possível e manter essa influência fora do meu dia-a-dia, mas as coisas mudam, não tem jeito. Muita coisa mudou para melhor, claro, mas perdi muito em contra partida.

Perdeu o que, por exemplo?
Privacidade, claro. Sinto muita falta de poder andar normalmente pelas ruas e fazer o que tiver vontade, obviamente devo ser grato a esse ponto negativo, pois ele é fruto do sucesso do trabalho e da admiração das pessoas. Mas sinto muita falta disso. Agora, em termos de momento decisivo, acho que ainda não aconteceu. Estou esperando por ele (risos). Será que vai acontecer? (gargalhadas). Penso na vida em termos do ritmo imposto por cada trabalho. Considero meu momento muito mais como um sujeito empregado do que qualquer outra coisa, pois tenho trabalho todos os dias e isso é ótimo.

Pretende continuar trabalhando como James Bond?
Sim, sim. Gostaria de fazer pelo menos mais um.

Tem boas memórias do tempo em que trabalhou como garçom? Afinal, foi seu único período como “assalariado”, não é?
(risos) As memórias são boas, mas parecem distantes agora. Só trabalhei como garçom antes de começar a escola de teatro. Foram cerca de cinco anos trabalhando para pagar as contas e me sustentar. Porém, quando terminei meus estudos decidi que se tivesse que servir mais uma mesa que fosse, desistiria de ser ator, pois estaria fazendo outras coisas para conseguir meu dinheiro. Felizmente consegui me manter trabalhando como ator, ou pedindo emprestado (risos). Mas acho que todo mundo deveria trabalhar como garçom em algum momento da vida (risos).

Você é uma pessoa intensa assim como seus personagens?
Não, não sou nem um pouco assim (risos). Curioso que essas são características dos personagens que preciso criar, mas nada a ver comigo. A grande verdade é que, em alguns casos, não sou tão estruturado mentalmente, ou, pelo contrário, sou muito mais complexo que esse ou aquele personagem. Toda essa intensidade a qual você se refere tem a ver com a necessidade do personagem e do roteiro. Simplificando, não sou nenhuma daquelas pessoas e felizmente consigo separar muito bem minha personalidade do meu trabalho. O que vocês vêem é o meu trabalho.

Fica difícil fazer essa separação, afinal de contas, em filmes como Road to Perdition, 007, Munich e Um Ato de Coragem seus personagens são sempre altamente intensos, em alguns casos sombrios e obstinados…
Ah, aí é outra história. Adoro personagens sombrios. Não tenho idéia se algum dia conseguirem ser bom fazendo comédia (risos) – deveria tentar isso! Mas esse é um perfil que me deixa à vontade no set e também permite maior realização profissional.

Alguns atores comentam técnicas para entrar no clima para criar sujeitos como esses que você tanto gosta: escutam música pesada, lêem poemas de Edgar Alan Poe, e etc. Você tem alguma tática para fazer isso?
No caso de Um Ato de Coragem só precisei escutar o que o Liev dizia (risos). Foi uma dinâmica de irmãos, então eles tendem a se irritar. Claro que dedico um tempo a isso, mas basicamente entro no set e reajo aos estímulos – sejam eles atores, cenário ou cenas. Quando tudo está organizado, só é preciso fazer a sua parte e garantir a veracidade do trabalho. A habilidade de escutar as outras pessoas é fundamental na atuação, se você não consegue absorver o que o ambiente lhe fornece, você acaba ficando fora do contexto. Coitado do diretor quando isso acontece (risos).

Há algum sonho que você ainda queria realizar?
Depois de trabalhar num filme gigantesco como 007, fica difícil imaginar, pois não há nada melhor para um ator. Tudo acontece ali e o resultado é incrível, mas nada disso muda o fato de que precisamos trabalhar duro para conseguir isso.

E quanto à sua infância, algum sonho desde aquela época?
Não sei ao certo o que queria ser quando era bem pequeno, mas desde que me entendo por gente, sonhei em ser ator. Fiz muitas peças na escola, atuava sempre que podia e gastava boa parte do meu tempo dentro de teatros e cinemas. Meus pais tinham amigos no meio artístico, então chances de ter contato não faltaram. É aquela coisa: colocar roupas chamativas e se exibir… quer mais que isso? (risos).

É isso que te faz feliz hoje em dia?
Sim, sem pensar duas vezes.

Quais as principais mudanças do tempo em que você era um garoto sonhando com os palcos e hoje com toda essa fama?
Quando você é uma criança com uma motivação específica, tudo ligado a esse assunto gera uma memória muito forte. No meu caso, não importava se fosse assistir Bambi, O Mágico de Oz ou E o Vento Levou…, o efeito era absurdamente marcante e intenso, o que torna isso muito difícil de esquecer. Esses filmes, por exemplo, foram os primeiros que eu assisti e lembro da experiência até hoje, com detalhes. Havia um pequeno cinema na esquina de onde eu morava, o lugar era vazio, literalmente, mas eles exibiam filmes mesmo assim. E não eram filmes velhos ou coisa do gênero, eram longa-metragens novos, mas as cópias eram horríveis. Vi coisas como Blade Runner e aquele monte de filmes do Bill Murray nos anos 80 ali (risos). Eu olhava para aquela telona e pensava: quero fazer isso, quero ser um ator, quero aparecer num desses. Eu ainda quero ser um ator (gargalhadas).

Mas como isso mudou?
Começa pelo fato de eu ainda amar assistir filmes e não posso. Gasto um dinheirão com DVDs, por exemplo. Dou uma escapulida sempre que posso, pois sentar numa poltrona cercado por um monte de desconhecidos é uma experiência coletiva fascinante, especialmente naquelas seções onde as pessoas estão tão envolvidas que elas gritam e reagem o tempo todo. Sinto falta de estar em casa, vendo televisão e, de repente, decidir ir ao cinema. Hoje em dia preciso acionar uma equipe gigante para sair de casa. Parece uma operação militar, que precisa de planejamento e aprovação, especialmente quando 007 está em cartaz.

Quando foi a última vez que você conseguiu ir ao cinema sem precisar fugir dos fotógrafos e fãs?
Faz um tempinho já, mais um menos um ano atrás. Consegui entrar no cinema numa cidadezinha perto de Los Angeles para assistir Hellboy 2 – The Golden Army (risos), era o que estava passando. O mais engraçado foi uma pessoa chegar perto de mim e dizer: “já lhe disseram que pareces demais com Daniel Craig?”. Eu disse que acontecia comigo o tempo todo, ri e fui embora. Foi engraçado, pois estávamos num lugar tão fora do eixo das estrelas, que ninguém imaginaria que seria eu mesmo. Adorei isso, sei que sempre posso voltar lá e assistir o que quiser e ninguém vai me perseguir.

Qual é a melhor coisa da fama provocada por James Bond?
Eu viajo para todo canto do mundo. É exaustivo, mas poder sentar num quarto de hotel no Japão, com uma vista magnífica e conhecendo um povo fantástico, assim como tantos outros lugares que visitei é simplesmente sensacional. É um ótimo momento da minha vida e não vejo razão para não aproveitar as vantagens e ficar feliz.

A temporada dos prêmios está chegando. Você se preocupa com Oscars, BAFTAS, Palma D’or?
Não, se preocupar com isso é problema de outra pessoa. Meu trabalho já está feito.

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comentários
  1. […] de voltar do chiquérrimo hotel Beverly Wilshire, onde entrevistei Daniel Craig ano passado. Dessa vez, foi a vez de chegar perto de um ídolo, ou melhor, algo próximo de um deus […]