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Maior fã-clube de Guerra nas Estrelas do Brasil completa 10 anos, grandes realizações e muita história para contar. Conheça um pouco dessa história.

Muito antes do plano de dominação das mídias (by @JurandirFilho) começar, eu era apenas um jovem estudante de jornalista, fanzineiro apaixonado por Guerra nas Estrelas. Em 1996, comecei a editar o Intrepid, bimestral impresso no qual eu descarregava minha nerdice e descobertas sobre aquele maravilhoso universo inventado pelo Flanelado [ também conhecido como George Lucas]. Internet era novidade e o Intrepid era diagramado a duras penas, escrito nas madrugadas e impresso na Xerox mais próxima. Depois começava a batalha para vender os exemplares. Afinal, onde estavam os fãs de Guerra nas Estrelas?

Viver tentando divulgar esse trabalho no meio dos fãs literários [basicamente pessoas mais velhas, com outros interesses e certo receio por SW ser ‘apenas uma space opera adolescente’] foi complicado. As “convenções” eram poucas e, claro, entrar no evento da Frota Estelar segurando uma centena de fanzines de Guerra nas Estrelas não parecia algo lógico. Tampouco faria bem aos dentes. A resposta a essa pergunta surgiu numa lista de discussão, chamada Virtualand. Fiquei sabendo dela porque assinava o Relatório Alpha, um informativo publicado pelo Aldo Novak, antes dele cair em desgraça e se embrenhar no mato atrás de alienígenas. Conheci um povo, sugeri a criação de um fã-clube, afinal, com fãs, haveria a real necessidade de um fanzine e, com um fanzine, mais fãs chegariam. Que Mané midchlorians, Lucas! Isso sim é simbiose! =D

Bom, papo vai papo vem, o Conselho Jedi São Paulo nasceu em 1º de maio de 1999. Não foi o primeiro, porém. Brian Moura, Felipe e Bruno haviam fundado o Conselho Jedi Rio de Janeiro. Havia algo de especial no grupo de São Paulo, talvez a dinâmica da cidade e sua natureza de pólo cultural mais agitado tenha transformado essa idéia simples – afinal, só queríamos fazer amigos, como diria o Gasparzinho – em um rolo compressor com fôlego para crescer sem parar ao longo de uma década.

Foi esse elemento especial, essa motivação [em boa parte fruto da minha dedicação exagerada, que me custou um emprego, aliás… exagero nunca é bom] e, claro, o fato de maior possibilidade de sucesso por causa da população, que fez do CJSP a sede da primeira JediCon – a convenção nacional de Guerra nas Estrelas. O evento nasceu como um “encontrão” entre fãs de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Mas, quem me conhece sabe que não me contento com “pouco”. Notei que isso podia ser muito maior, afinal de contas, se alugaríamos um salão para 40 pessoas, por que não chamar quem mais quisesse participar? Vontade não faltava, todos os organizadores estavam delirando, então o sonho aconteceu. Mais de 700 pessoas invadiram o lugar, com cobertura da Bandeirantes, MTV e vários outros veículos. Meu lado assessor de imprensa já trabalhava antes mesmo de encarar isso como profissão.

Mas essa realização foi conjunta. CJSP “à frente” simplesmente por ser a cidade sede, logo, seria errado sequer sugerir que esse seja apenas um capítulo da história do clube paulistano. Daí pra frente, porém, cada clube entrou numa curva ascendente e realizaram grandes coisas. Bem, menos o CJMG que não conseguiu reunir condições de realizar sua JediCon de direito em 2001 e, para evitar que o evento fosse cancelado, banquei uma das decisões mais arriscadas como presidente do CJSP: assumi a responsabilidade de realizar a convenção em São Paulo, no auditório Elis Regina, no Anhembi. E, mais malucamente, negociei a vinda de um ator pela primeira vez. Foi intenso, difícil e muita coisa deu errada – inclusive a vinda do ator, cujo patrocínio foi retirado logo após os atentados terroristas de 11 de Setembro – mas a JediCon 2001 aconteceu.

O CJSP tornou-se pólo de reunião de diversos tipos de fãs. Sim, tipos. Havia pessoas interessadas apenas em quadrinhos, outras especializadas na literatura e um bom número de jogadores do Star Wars Custom Card Game, ou SWCCG. Esses “cardíacos” surgiram de diversas partes do Estado, especialmente de Santos. Também de Santos veio um dos membros mais inesquecíveis do clube, bem, pelo menos para a primeira geração. Ricardo, também conhecido como Gordinho, surgiu num encontro totalmente alucinado com seus cards e uma câmera de vídeo. Até aí tudo bem, mas ninguém acreditou na hora em que ligamos a TV para passar O Império Contra-Ataca [havia cerca de 12 pessoas nesse encontro], ele ligou sua câmera e começou a “FILMAR O FILME”, mas com um detalhe: “morre rebelde! Veers é evil! Pisa no rebelde!”. Narração totalmente passional pró-Império. Foi inesquecível e hilário.

É nesse tipo de momento bobo, mas especial, que notamos que se dedicar a algo de coração nos transforma em pessoas melhores. Naquele momento, tenho certeza, não havia mais nada na cabeça do Ricardo, nada além de estar se divertindo, com pessoas que entendiam as piadas e, acima de tudo, gargalhavam com ele. Se começar a citar lista de grandes nomes que tive a honra de conhecer enquanto fui presidente do CJSP e depois, apenas como membro, seria uma imensa lista. Mas cito alguns que me são muito queridos: Igor Oliveira, Fernando “The Jedi Master”Netto, Eduardo Canha, Marcelo Forchin, Roberto Fabrício, Kadu Chicaroni, Federico Almada, Humberto Lemos, Cynthia Zocca, Fabiola Chierrice, Brian Moura, Clinton Davisson, Mariana e Lucia Morgado, Snorks.

Nos reuníamos no salão de festas dos prédios de alguns membros, na casa de outros, em shoppings, livraria, invadíamos salas de cinema para assistir filmes nerds e, acima de tudo, aprendíamos sobre Guerra nas Estrelas. Compartilhávamos conhecimento, posturas, experiências e, às vezes, nos contentávamos com o mero ato de apreciar as realizações dos outros. Fosse uma maquete, uma camiseta, uma escultura… uma fantasia. Sim, fantasia, pois fã de Guerra nas Estrelas veste fantasia, não cosplay. Fã de Guerra nas Estrelas escreve contos ou histórias, não fanfics. Existimos muito antes de esses termos terem sido inventados ou banalizados. Há muito orgulho no fato de se dizer um fã da Saga, afinal, as piadas envolvendo gostarmos de lighstabers, espaçonaves de “mentirinha” ou saber nomes como Chewbacca ou Mon Mothma parece o fim do mundo para os “civis”. Acima de tudo, os fãs são pessoas corajosas.

E isso faz do CJSP um grupo corajoso, que precisa se superar cada vez mais para atrair novos membros e resistir mesmo ao fim da Saga no cinema. Quantos fã-clubes vi nascer, e morrer, logo após seu objeto de adoração ser encerrado – no caso de séries – ou ter apenas um filme só? É preciso coragem para continuar seguindo esse caminho. Mas essa coragem de nada serve se o principal objetivo não for satisfeito: aprendizado. Ensinar e aprender. Orientar e melhorar. Pessoal ou nerdicamente. Fazer amigos. Melhor o mundo. Sim, pois cada pessoa que aprende e é tratada com respeito vai transferir esse comportamento para outros círculos, outros bairros, outras famílias. Esse é o legado de um grande fã-clube. Não o tamanho de suas convenções, a quantidade de camisetas vendidas ou brindes distribuídos, mas a história de vida de cada um de seus membros.

Há 10 anos, tomei uma decisão que mudou minha vida, mas também alterou os rumos da história de milhares de pessoas. Esse é o poder da Força, da importância que existe em cada um de nós. E não é necessário criar um fã-clube para fazer isso, às vezes, realizar um Ato de Bondade Aleatória fará muito mais efeito do que tentar lutar contra probabilidades impossíveis, como faz Han Solo. Mudei minha vida com Guerra nas Estrelas. Sou correspondente internacional em Los Angeles pois, um dia, assisti a um trailer de O Retorno de Jedi e me apaixonei; aprendi inglês e estudei jornalismo para, um dia, entrevistar meus ídolos. No meio da realização do meu sonho, pude ajudar os outros a encontrarem seus próprios caminhos, então, se eu consegui, qualquer pessoa consegue. Não nasci em berço de ouro e nunca tive dinheiro sobrando, mas tudo isso aconteceu por paixão, por amor, por vontade de interagir de verdade.

Esse é um pouco do meu legado, que compartilho com milhares de pessoas, que compartilharão com outras milhares de pessoas. Um simples filme, um pequeno grupo de fãs, que mudou seus rumos e, quem sabe, não ajudará o mundo a ser um lugar melhor.

Que a Força Esteja com vocês!

Fábio M. Barreto
[Wedge Antilles]
Fundador do CJSP

ps.: Infelizmente, embora gostaria muito de participar, não pude participar do evento especial que celebra o décimo aniversário, nesse momento; e também não realizarei meu sonho de participar de todas as JediCons paulistas, já que restrições financeiras me impedirão de ir ao Brasil em novembro. Agradeço a vocês por manterem esse sonho vivo! =D

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