Guillermo Del Toro é competente, tem um bom elenco e uma história complexa nas mãos. Pancadaria e mitologia se misturam na segunda aventura do Vermelhão.

LOS ANGELES – A chegada de Hellboy aos cinemas provou o carisma do herói infernal que, com a ajuda de Ron Perlman, se tornou um personagem com a cara do cinema de ação atual. Depois da ótima recepção de seu primeiro filme, ele retorna à carga com Hellboy II – O Exército Dourado. Além de grandes níveis de ação, o longa traz um subtema explorado com impacto e excelência pelo diretor Guillermo Del Toro: a relação entre o ser humano e a natureza.

Já foi publicado no Judão. Quem ainda não leu, pode continuar!

Em sua primeira aventura, Hellboy fazia as vezes de balança entre a maldade dos demônios e a fragilidade dos seres humanos. Tudo bastante definido, com a própria existência do personagem servindo como zona de incerteza até o momento de definição em que ele escolhe um caminho e salva o dia. Entretanto essa dicotomia desaparece em Hellboy II, conforme o roteiro leva o espectador a um mergulho por uma zona cinzenta e incerta, que é representada pelo retorno do povo Élfico ao mundo humano. Mesmo dentre os Antigos, porém, as incertezas e receios estão presentes, transformando a produção num grande convite à reflexão. E, mais importante, sem reduzir a ação, o bom-humor e a pancadaria que são marcas registradas de Hellboy.

A juventude de Hellboy ganha mais espaço e é uma de suas histórias de ninar que narra uma antiga guerra entre homens e seres da natureza, como elfos, trolls, ogros, árvores e por aí vai. Em mais um momento de genialidade e habilidade, Del Toro reconta essas batalhas dignas de O Senhor dos Anéis sem nenhum requinte, pois usou bonequinhos de madeira – a referência visual que o jovem Anung un Rama tinha em seu abrigo – que, mesmo sem sangue ou lâminas, conseguem ser tão violentos quanto seriam na “realidade”.

Um tratado foi firmado com o desfecho da guerra. Quase aniquilados pelo Exército Dourado do título, os humanos se rendem aos elfos que, do alto de sua sabedoria, poupam nossa raça e “dividem” seus domínios. As florestas seriam de domínio das forças da natureza, enquanto aos homens restariam suas selvas de pedra. Imaginando um futuro negro, o príncipe se revolta e parte para o exílio.

Ele estava certo e os homens não honraram sua parte, pois, conforme se esqueciam da promessa, florestas foram derrubadas, raças extintas e o submundo foi o que restou como refúgio. Milênios depois, o príncipe exilado decide retornar retomar àquilo que, por direito adquirido e conquistado pela ponta da espada, é de seu povo: a superfície do planeta. A partir daí, Del Toro promove outro show de referências mitológicas e mostra que entende, e muito, tanto das lendas humanas quanto do Hellboy de Mike Mignola.

Sem ser uma adaptação direta de uma história específica e com direito a alterações na linha de acontecimentos (o desfecho dos personagens é diferente do apresentado nos quadrinhos, por exemplo), Abe e Liz têm ótimas participações e ainda abrem espaço para o especialista espectral Johann Krauss entrar na festa. Os relacionamentos entre personagens é uma das grandes armas do filme, que consegue trabalhar elementos de família, paixão quase adolescente – afinal, até os homens-peixe podem amar, não? Veja o Borbs, por exemplo! – e auto-descobertas, especialmente quando se trata de Hellboy.

A grande chave de Hellboy II – O Exército Dourado é a escolha. Mas, diferente da escolha binária que Neo faz em Matrix Reloaded, ou da decisão que o próprio Hellboy tomou no primeiro filme, o que está em jogo vai muito além da existência da vida. Na verdade, é necessário que o futuro seja decidido ali – em vários aspectos, aliás. Entre os demônios e a vida, Hellboy escolheu se aliar à Humanidade. E o que fazer agora que a raça humana se torna o problema e, invariavelmente, vai acabar com o planeta? Nada disso se compara, porém, às decisões que Liz precisa tomar ao longo do filme. A principal delas se refere ao destino do Vermelhão, que pode destruir a tudo e a todos, mas, como sempre, há a esperança no fato de que ele vá resistir e evitar o teoricamente inevitável.

Toda essa mistura de emoções e incertezas sobre como agir vem emergindo em filmes e seriados de grande sucesso há algum tempo nos EUA. Reflexo claro da falta da mentalidade duvidosa e insegura presente na sociedade estadunidense desde o final da Segunda Guerra Mundial. Curioso como vemos um diretor mexicano trabalhar com elementos mitológicos europeus e ser capaz de soltar uma bomba conceitual em alguns nichos dos EUA. Recentemente, os mesmos pontos foram abordados com Battlestar Galactica, por exemplo, que desfaz barreiras entre inimigos e coloca tudo em jogo, mas, sempre sob a égide da esperança, as pessoas continuam a lutar. Embora não saibam o motivo.

Diferentemente de Wall-E ou de The Happening, Hellboy II não só flerta com os perigos que representamos para o planeta – em diversos aspectos e níveis de envolvimento –, mas também propõe ação, em vez de meramente pincelar o assunto e deixar a resposta para o futuro. Afinal de contas, tudo é uma questão de escolha e de saber o que é necessário ser feito.

Mitologia
Hellboy conhece as razões pelas quais luta e gosta de uma boa treta e, por conta disso, cada ação sua é colocada em cheque pelo inteligente e brilhante príncipe Nuada, que não luta por seu ego, mas pela salvação da vida na Terra. Muito disso se resume a um dos maiores combates do filme, no qual Hellboy se vê enfrentando o Pé de Feijão, da antiga lenda inglesa. Uma criatura magnífica, capaz de espalhar a vida em tudo que toca, mas que não se enquadra no cenário urbano e ganha traços monstruosos enquanto tenta matar o Vermelhão.

O embate serve como uma espécie de lição de moral antecipada da história toda, especialmente em face da reação da sociedade tanto à criatura quanto ao próprio Hellboy. Não importa a função, se é diferente, é do fr0m h3ll, de acordo com as pessoas. E o filme não exagera nesse ponto, pois, embora pareçam distantes, racismo e preconceitos ainda corroem a sociedade por dentro. O filme simplesmente lembra o público de que esse fantasma ainda está por aí, e nem mesmo Hellboy é capaz de derrotá-lo — aliás, perde feio.

Esse tipo de preocupação em aproveitar o estético para expor e analisar o subliminar e, por vezes inconsciente, também mostrada em O Labirinto do Fauno, faz de Guillermo Del Toro um diretor bem-sucedido e efetivo. Um ponto mais do que positivo, aliás, para sua participação em O Hobbit, uma história estrelada por dois povos basicamente oriundos da terra: anões (que, literalmente, brotaram da rocha) e hobbits.

E, o mais importante, o diretor faz tudo isso e ainda encontra espaço para permitir todas as tiradinhas humorísticas de Hellboy, construir uma nova fase de seu relacionamento com Liz e, a grande surpresa, abre mais espaço para Abe, que descobre o amor, o romantismo e, claro, o primeiro porre de cerveja barata! Tudo ao som de Barry Manilow, com Can’t Smile Without You.

É possível que parte do público passe boa parte do tempo se perguntando onde está o tal Exército Dourado do título. A exemplo do King Kong de Peter Jackson, a grande arma do príncipe Nuada fica reservada para o final, fazendo do próprio personagem o antagonista de Hellboy e, de certo modo, a consciência de um mundo que clama pela vida, mas pouco pode fazer contra os humanos. Ele, pelo menos, pode pegar sua lança e armar um pandemônio. O personagem foi muito bem construído, física e intelectualmente, com um grande roteiro. As lutas foram bem executadas pelo ator Luke Gross e mostra para Legolas como um “elfo de verdade” bota para quebrar. Brincadeiras à parte, os elfos desse filme – embora fisicamente semelhantes aos de Tolkien – apresentam uma origem mais ligada ao planeta, tanto que, quando morrem, transformam-se automaticamente em terra. Nuada é aquele tipo de sujeito que consegue filosofar enquanto briga, sem ficar chato ou canastrão.

Nuada, aliás, se apresenta como um dos personagens com maior base mitológica em Hellboy II. Inspirado diretamente nos relatos sobre as invasões da Irlanda, Nuada remete diretamente ao primeiro rei dos Tuatha Dé Dannan, uma raça descendente dos deuses irlandeses (e não uma banda de metal, como alguns devem ter percebido). Toda essa influência transformou a Ilha Esmeralda em cenário para belíssimas cenas externas do filme, que foi inteiramente filmado em Budapeste, na Hungria. Seguindo os preceitos da mitologia, ele foi ferido em batalha, perdendo um braço, o que, de acordo com o costume da época, o impedia de ser rei, uma vez que alguém não completo seria recusado pela terra. Se isso valesse no Brasil, teríamos outro presidente. =D

Assim como na História, o personagem do filme carece de completude, pois tem um forte laço com sua irmã gêmea. O que acontece com um, inevitavelmente, afeta o outro. Sejam ferimentos ou tristeza. Por esse aspecto, Nuada não está completo, pois não conta com o apoio da irmã na guerra que pretende travar. E, por não ser completo, seu plano não discorre com apoio de seus iguais ou demais criaturas da natureza e continua socialmente exilado mesmo assumindo o controle de seu reino.

Essa leitura coloca parte da culpa pela destruição humana nos ombros dos seres mágicos, uma vez que eles se recusam a resistir ou mesmo lutar. Tudo em nome da honra e de antigas promessas, mesmo que isso custe suas vidas. Esse conceito é uma retomada ao que, primeiramente, foi criado por Tolkien em As Duas Torres e abordado também pelos filmes: os Ents. Mesmo sendo exterminados, os pastores de árvores depositavam suas esperanças no simples ato de aguardar a mudança da maré, que não veio até o momento de seu levante.

O constante envolvimento de Del Toro com o fantástico e o modo como ele o aborda apresenta e valoriza os antigos conceitos das deidades e da interação entre homem e natureza, aproximando seu trabalho do estilo que consagrou Neil Gaiman, especialmente com seu Deuses Americanos. Lado a lado, Del Toro e Gaiman tornam-se os dois grandes divulgadores de um estilo único de contar histórias e desprovidos da base cristã para a origem dos mitos. Isso garante credibilidade e verdadeira validade para a mitologia envolvida, pois, para compreender esse tipo de assunto, é necessário encará-lo com algo maior e mais profundo do que a mera roupagem de contos infantis ou o Mal extremo difundida após a consolidação do catolicismo na Europa.

Pancadaria
Mesmo com toda essa base, Hellboy não seria o mesmo sem ótimas doses de brigas, explosões e criaturas sobrenaturais. Depois de encarar as mortíferas Fadas do Dente, o Pé de Feijão e a versão fr0m h3ll da “Velha dos Gatos”, que, além de viver rodeada por felinos, come os bichanos, o herói e seu time precisam peitar o tal Exército Dourado. Construídos pelos ferreiros goblins quando a guerra estava perdida e os bonequinhos de madeira humanos davam uma sova nos bonequinhos élficos, esse exército tornou-se a força máxima na Terra, algo controlado apenas pelo desejo do atual soberano, seja ele homem, seja ele elfo.

Toda a jornada da ascensão de Nuada tem por objetivo despertar essa arma e deixar o “pau comer” na superfície. Mas, claro, Hellboy está no caminho e sua missão é impedir que isso aconteça. E tudo ganha contornos especiais quando o Vermelhão precisa começar a pensar em sua imagem pública, afinal, explodir coisas e assustar as pessoas não ajuda a manter o segredo do Bureau onde trabalha. Dadas as devidas proporções, o dilema de Hellboy é bem similar ao enfrentado por Hancock, outro “incompreendido” que passou pelas telas estadunidenses recentemente.

Hellboy dá conta do recado sozinho, mas, desta vez, tem a ajuda de Krauss, um cientista que vive apenas em espírito e é capaz de controlar seres e máquinas a seu bel-prazer. Quando a dupla começa a brigar, é bom que os inimigos fiquem preocupados, mas, como nada afeta o Exército Dourado, os minutos de glória vividos pelos heróis pouco importam. Inevitavelmente, a solução está com o Vermelhão e, finalmente, o apogeu do filme.

Vale ressaltar que Hellboy tem uma vantagem em relação aos demais filmes de ação. Nem mesmo as pelejas são gratuitas quando o mundo está em jogo. Tudo ganha seu devido peso em termos dramáticos e permite aos atores fazerem algo mais que simplesmente simular lutas contra a tela verde. Um dos destaques é Liz. Embora um tanto “apagada”, perto de toda a grandiosidade do filme, as maiores decisões dramáticas da história estão nas mãos dela. A personagem claramente evoluiu em relação ao primeiro filme, contudo, literalmente, precisou brigar por espaço em meio a toda a necessidade de salvar o mundo.

Mas não há dúvidas de que o show está nas mãos de Ron Perlman e seu gigante vermelho. Em ótima forma física e comprovando ser a melhor escolha para o papel, Perlman foi capaz de cumprir a difícil tarefa de apresentar um personagem com momentos de adolescente inseguro, adulto incerto e namorado inexperiente. Tudo isso sob toda aquela maquiagem que para muitos atores seria um problema, para ele sempre foi uma arma secreta e, de acordo com o ator, foi um dos motivos que o levaram a ser escolhido para o papel, especialmente por seu ótimo trabalho nas temporadas da série A Bela e a Fera (exibida pela Globo no Brasil, na década de 90). Claro que a semelhança natural com o personagem também ajudou muito.

Quem gostou do primeiro filme pode sentir a clara evolução em termos de ação nesse segundo, com efeitos melhores e melhor roteiro, com pouco espaço para obviedades. Mas nada consegue livrá-lo de ser um filme de gênero, com um público-alvo muito bem definido e execução sob medida. Del Toro é competente, tem um bom elenco e uma história complexa nas mãos. Entrega um produto impactante, memorável dentro da ação, mas sem a universalidade que levou o ótimo Labirinto do Fauno a ser sucesso de crítica por onde passou.

* Publiquei aqui para meu arquivo. Saiu antes no Judão, aqui! :p

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comentários
  1. RomRufus disse:

    Barretão,
    Essa sua resenha do filme está incrivel. Me mostrou pontos do filme que eu realmente não tinha reparado.
    Parabéns pelo texto!

  2. Fernando disse:

    Bom, eu achei o filme divertido, mas muito aquem do que eu esperava, estilo sessão da tarde. O roteiro tem muitos furos e os personagens acabaram se tornando os herois mais egoistas que ja vi na vida. Tipo, depois de a princesa morrer, o abe simplesmente vai na onda de pedir demissão e vai embora, sem nem chorar, e sabe-se lá pra onde, ele apenas segurou ela (a princesa) nos braços um 5 segundos e olhe lá. O Hellboy acaba nao pensando duas vezes para abandonar a organização que O PAI DELE levou a vida para criar. E Emfim, acho que esse post tentou explicar demais o filme, e isso é um mau sinal, pois quando é necessário explicar demais é poque nao foi bom mesmo.

  3. Silvia Penhalbel disse:

    Adorei o post!

    Os detalhes que você contou sobre a mitologia são impressionantes. Conhecimento e, principalmente entendimento é algo para poucos, mas isso a gente já sabia não é mesmo? ;P

    Nunca li Hellboy mas gostei dele na telona e eu adoro filme que envolve mitologia, principalmente se desenvolvido com tanto cuidado.

  4. Andy disse:

    Tem algumas partes que só vim tocar agora lendo sua resenha…
    Massa véio…
    Considero Hellboy um filme super diferente das outras adaptações… Por seguirem um lado bem fantasioso e “doentio” e pro tipo de história ficaria até mais massa do que seguir a linha dark como todo mundo quer fazer agora.

  5. Sensacional artigo, FAbiovisky, e Hellboy II é um filmaço!
    Abração

  6. Nando - Capitão Careca disse:

    texto muito longo… .. . vc nao tem um livrinho so de gravuras pra eu “ler”? heheheehhe

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